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Passagens

Willy Corrêa de Oliveira

"Passagens:passos essenciais (fundamentos): aquelas que se engramaram no ser indiviso, e não só na memória"

Passagens

Willy Corrêa de Oliveira

R$ 36,00

ano: 2008

nº páginas: 162

formato: 10,5 x 17 cm

ISBN 9788561530020

na imprensa

Passagens

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Evocações do Recife

Como convém a um compositor, há um prelúdio, pelo qual se deve começar, e um postlúdio, pelo qual se deve terminar. São os únicos conselhos dados por Willy Corrêa de Oliveira para a leitura do seu Passagens, memórias vividas, algumas talvez inventadas, fragmentos autobiográficos e líricos apresentados assim: numa caixa. Os interlúdios são folhas soltas que o leitor pode embaralhar para fruí-los como bem entender. “Como sonhos são passagens da noite, passagens são sonhos do dia”, escreve.

O autor deste novo lançamento da Luzes no Asfalto Editora é músico brasileiro dos mais importantes – e dos mais polêmicos –, um dos criadores do Festival Música Nova (que em setembro deste ano chegou à 43ª edição), ao lado de Gilberto Mendes, professor de composição – hoje já aposentado – da Universidade de São Paulo e mestre admirado por compositores que começam a despontar no restrito cenário musical erudito brasileiro. Também intelectual de vasta cultura, Willy inspirou-se duplamente num dos maiores pensadores do século 20 para escrever este livro. Duplamente porque, como revela no “Prelúdio”, “na origem das Passagens esteve um livro sobre uma infância que me impressionou até à medula: Infância em Berlim por Volta de 1900, de Walter Benjamin”, e porque o filósofo judeu-alemão deu exatamente o nome de Passagens ao seu mais grandioso – e inacabado – projeto, embora aqui as passagens fossem outras.

Assim como Infância em Berlim, as Passagens de Willy evocam com detalhes as lembranças dessa época e dão conta da vida interior do menino introspectivo, sensível e imaginativo presente no adulto que as rememora, ao mesmo tempo que trazem ao presente acontecimentos do Recife dos anos 40, pois foi na capital pernambucana que o autor nasceu, em 1938. Lá morou até os 12 anos, vivendo um pouco por todo o Brasil, até aportar em São Paulo por volta dos 20 anos, com algumas partituras de autoria própria embaixo do braço (fruto de um aprendizado sobretudo autodidata), que ele logo destruiu, após tomar contato com as idéias de vanguarda do maestro Olivier Toni. Mas essa é outra história.

O que se vê nestas poéticas Passagens – além do talento de Willy também para a escrita literária – é um movimento do autor em direção às suas vivências mais profundas, o que, de resto, parece transparecer também nas suas peças musicais mais recentes, já chamadas de “miniaturas monumentais”.

“Neste livro tudo o que é contado ocorreu antes dos 10 anos de idade. Não obstante, não se trata de autobiografia porque o cotidiano não foi cotado. Preferimos indigitar tão só as passagens que, observadas desde certo termo da vida do passageiro, aparecessem como passos essenciais (fundamentos): aquelas que se engramaram no ser indiviso, e não só na memória”, sintetiza Willy.

Por aí se vê que se trata de um livro para os leitores de olhos e ouvidos atentos às pulsações da vida interior e às quase imperceptíveis epifanias do cotidiano, isentas de cronologias.