Luzes no AsfaltoLuzes no Asfalto

 

Passagens

Willy Corrêa de Oliveira

ir para o livro

O que se sabe é que são epifanias ou acontecimentos que acompanharam o autor até os seus dez anos em Recife.

K - Jornal de Crítica - 05/01/2009

Alumbramentos de um menino em Recife

por Donizete Galvão

Em um livro que trata de infância, é preciso dizer que Passagens propõe uma brincadeira deliciosa. Com exceção do Prelúdio e do Postlúdio em que o autor recomenda que sejam lidos no início e no fim, tudo o mais é um jogo de armar, próximo ao O jogo da amarelinha de Cortázar. Dentro de uma caixa, vários panfletos de frente e verso, quatro páginas, seis páginas estão à espera de ser achados. Cabe ao leitor escolher a esmo o que quer ler e, assim, montar o seu livro.

Um outro ponto que torna o livro muito atraente é a escolha do texto curto, quase aforístico, que podemos chamar de minicontos, poemas em prosa, crônicas. Fica de fora, portanto, qualquer relato cronológico ou idéia de autobiografia. O que se sabe é que são epifanias ou acontecimentos que acompanharam o autor até os seus dez anos em Recife.

O fragmento significa uma aposta do autor na sua capacidade narrativa. Cada um deles deve ser atraente o suficiente para prender o leitor e ao mesmo tempo atiçá-lo para um outro e assim por diante. Enfim, cada narrativa funciona sozinha e, ao mesmo tempo, compõe um mosaico mais poético e onírico do que anedótico ou linearmente biográfico.

Willy Corrêa de Oliveira revela-se um virtuose da escrita. Tudo é admirável nesse livro-objeto. Leitor entusiasmado de Walter Benjamin, o autor lembra de Infância em Berlim por volta de 1900, livro que o impressionou vivamente. Coloca Benjamim ao lado de seus prediletos como Kafka, Joyce, Dylan Thomas, Rilke. Willy é um grande leitor de poesia e dá mostras disso na sua prosa e também nos trechos de poemas que escolhe para musicar de nomes como Dylan Thomas, João Cabral de Melo Neto, Paul Celan, Rilke, entre outros.

A idéia inicial era fazer esses relatos para seu neto, Lucas Dessalien, que tem sete anos e mora na França. Ao passar para o neto suas fulgurações de menino, ganhamos todos nós que podemos mergulhar nesses sonhos acordados que compõem Passagens.

Impressiona, por um lado, a riqueza de detalhes. A narrativa é muito precisa ao recuperar texturas, cheiros, luzes e sensações. Os fatos soam vívidos, intensos, como que novamente recuperados da perplexidade do menino pela memória do adulto. Ao mesmo tempo, envolve os episódios uma aura própria da infância. A inauguração das coisas diante do primeiro olhar, a descoberta da atenção, os fragmentos das conversas de adultos que se tornam misteriosos diante do menino que está descobrindo o seu jeito de estar no mundo.

Em primeiro lugar, nota-se em Willy uma paixão imensa pelas mulheres. Que podem ser distantes como a amada Ingrid Bergman ou próximas como as meninas da vizinhança. Em todas essas narrativas, a presença feminina causa um rebuliço, uma tremura não nomeada, meio ainda sem saber o porquê, mas já um apaixonado. Esta paixão pode levá-lo a gestos de amor como doar o livro O Cinto de Hipólita, que acabara de ganhar, para a menina vizinha, que nunca o devolve. Esse coração disparado do garoto diante das mulheres está muito bem representado nos episódios sobre a descoberta do amor e do desejo.

Em outros momentos, acompanhamos o brotar da sensibilidade artística. Um auto-retrato de Goya que o assombra por semanas, visto em um almanaque do Pernalonga. A revelação da música de Chopin por causa do filme À noite sonhamos. São momentos íntimos, mas definidores de toda uma vocação.

Há relatos dos mais bem humorados, quando se veste muito aprumado com um terninho novo com pala, bolsos e mangas reviradas em xadrez para ir ao circo e, no número dos macacos, percebe que todos eles estão vestidos com roupas idênticas às suas. Convém parar por aqui para deixar ao leitor o prazer de ir percorrendo essas passagens.

O estilo de Willy tem a límpida elegância de quem domina muito bem a língua. Um léxico rico que recupera para o presente arcaísmos portugueses, um uso saboroso de neologismos e a busca da palavra mais expressiva. Conhecido compositor de música erudita, Willy se apresenta agora como um daqueles talentos literários requintados com os quais Pernambuco costuma presentear o país.

ver outros resultados deste livro