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Passagens

Willy Corrêa de Oliveira

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Uma das vantagens dos livros construídos por meio de aforismos ou textos curtos é que sua leitura se transforma numa quase constante surpresa

O Estado de São Paulo - Caderno 2 - 19/10/2008

Mergulho no quintal da infância

por João Marcos Coelho

Uma das vantagens dos livros construídos por meio de aforismos ou textos curtos é que sua leitura se transforma numa quase constante surpresa: por causa da escrita mais aguda, sem gordura; e pela necessidade de capturar logo o leitor. Se esses textos se separam fisicamente, então, formando folhetinhos e panfletos, às vezes de uma página frente e verso, a brincadeira fica ainda mais interessante. Além da diversidade, o leitor assume papel ativo: ele constrói a “sua” versão do livro.

Este é um, mas não o maior, dos encantos do excepcional Passagens (Luzes no Asfalto Editora, tel. 3231-0240, caixa com 162 págs., R$ 36), de Willy Corrêa de Oliveira, um dos grandes compositores brasileiros contemporâneos, que reafirma seu enorme talento de escritor, quem sabe recalcado em troca de uma notável carreira em tudo e por tudo revolucionária - na música, nas atitudes políticas e até nos raros livros anteriores. No lançamento, que ocorre na Livraria Sobrado, na terça, haverá um recital às 20h30, com composições de Willy Corrêa de Oliveira interpretadas por Caroline De Comi (soprano), Maurício De Bonis (piano) e Jezreel Silva (trompete).

Mesmo preso a temáticas musicais, como no fantástico Beethoven Proprietário de um Cérebro (Perspectiva, 1979), Willy sempre seduz em seu tenaz engajamento artístico e político.

No Prelúdio, ele fala sobre a origem de seu Passagens. “Foi um livro sobre uma infância que me impressionou até a medula, Infância em Berlim por Volta de 1900, de Walter Benjamin.” Passagens são sonhos do dia, para Willy, “como sonhos são passagens da noite. Um a gente vive de dia, o outro é vivido de noite. A diferença entre viver e vivido é que ambos são passagens, e que ambos são sonhos. Com as passagens, a gente pode lidar como quem sonha: recebendo sonhos e passagens como estratos”.

O livro compõe-se de 38 textos curtos centrados nos primeiros 10 anos de vida do autor, impressos separadamente e acondicionados numa caixinha em tamanho de livro de bolso. Aos 70, Willy promove um mergulho no seu quintal de infância, no seu Recife natal, nas “passagens” secretas que só conhece quem viveu por lá naqueles idos da 2ª Guerra Mundial.

É memorialística e ao mesmo tempo não é. Explico. É, porque Willy relembra brigas de moleque, canções de roda, impressas em alguns dos textos, e até de um soneto em espanhol de Lupercio Leonardo de Angensola. Deste poema, aliás, ele escreve: “Não sabia pleno os que queriam dizer as palavras, mas adorava os versos, o sério, as cadências. Este soneto, sabia-o de cor.” Willy rememora também os hinos evangélicos que foram trilhas dos primeiros amores infantis; as minimusas inspiradoras de canções que ele só veio a colocar no papel agora, poucos anos atrás. E não é memorialística porque nesses textos aparentemente descompromissados ele revela aquela que talvez seja sua maior característica pessoal e artística.

Ele afinal conta as primeiras manifestações, ainda criança, de sua impressionante capacidade camaleônica de introjetar-se no objeto de sua paixão artística do momento, mergulhar nele de tal modo que adquire todas as suas qualidades e - claro - os defeitos também. Num dos textos, sem título, ele conta que conviveu semanas com o Almanaque do Pernalonga, que reproduzia numa página o auto-retrato da série dos Caprichos, de Goya. “Fascínio à primeira vista”, escreve Willy. “À noite deleitava-me ao deitar com o chocolate Bolero antes de fechar a luz, com o almanaque, o Pedro Américo e o estojo sobre a mesinha de cabeceira, e fui Goya por semanas. Até que outra arte me possuísse por inteiro durante nova temporada.”

Movido a paixões, este é o motor do itinerário de Willy. Paixões ou passagens de sua trajetória. Como, por exemplo, a mais recente, em março deste ano, quando o portal do Estado publicou com exclusividade seu longo artigo sobre Villa-Lobos - uma guinada surpreendente, impactante, de um compositor que sempre rejeitou e ridicularizou o Villa. Na entrevista que concedeu ao caderno Cultura, Willy desfilou uma série de paixões (ou passagens?) musicais secretas ultraconvencionais que cultivou durante o período mais xiita da vanguarda dos anos 50/60. E leu, dramatizando, alguns desses textos ora publicados em livro: letrinha supermiúda, a lápis, linhas amontoadas quase não permitindo a leitura.

No postlúdio, Willy conta um caso engraçadíssimo acontecido numa ida ao cinema com sua irmã mais velha. “Saímos do cinema (…) e ela sem razão manifesta intempestivamente, desata a rir, parecendo uma doida (…) numa estreitíssima garganta entre dois morros de risos, ela conseguiu balbuciar, coitada: ?Você está andando igualzinho ao Vittorio Gassmann, quá, quá, quá.? Amuei-me. Desde aquela sessão de cinema venho cuidando e muito argutamente para que quem esteja ao meu lado não perceba demasiado a minha avaria (irreparável, ao que parece). Tomara.”

Entre Goya e Gassmann, Willy nos deixa entrever o nascimento de várias outras paixões, como a “da vocação para amar a arte abstrata”. Tudo certo e previsível. Certo mesmo? É só isso? Não. Outra frase, também pinçada do livro, joga o saudável jogo da contradição, que este camaleão genial tem praticado por décadas: “Mesmo nos lances das maiores abstrações, a arte realista sempre grilou, insistentemente, suficientemente, no fundo de minha consciência.”

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