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Na prisão/Im Gefängnis

Egon Schiele

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Egon Schiele relata, em Na Prisão, como descobriu que Deus e seu ofício eram a mesma entidade.

O Estado de São Paulo - Caderno 2 - 17/01/2010

Diário do pároco da arte erótica

por Antonio Gonçalves Filho

Um ano antes de ser recolhido ao presídio de Neulengbach, Áustria, em abril de 1912, acusado de sequestro, sedução de menores e difusão de imagens pornográficas, o artista austríaco Egon Schiele (1890-1918) pintava inocentes paisagens outonais daquela pequena e isolada cidadezinha a 35 quilômetros de Viena. Nenhum desses trabalhos, garante o biógrafo Frank Whitford, consegue nos persuadir a pensar em Schiele como um artista que tirava da natureza sua inspiração. Ele teria sido, acima de tudo, um pintor urbano, interessado em seres humanos. Mais particularmente, em ninfetas. Esse foi seu crime. Por causa delas, passou 24 dias na prisão, teve desenhos apreendidos e um deles queimado pelo juiz durante o inquérito, foi humilhado por carcereiros, viveu entre os próprios excrementos, respirou sufocantes odores e ficou incomunicável por dias, usando a saliva para desenhar no cimento da cela. É essa experiência que ele conta no livro Na Prisão (Editora Luzes no Asfalto, tradução de Cláudia Abeling, 90 págs., R$ 47). Nem tudo é verdade em seu diário. Seu depoimento é cheio de autocomiseração, omissões e, possivelmente, uma ou duas mentiras. Dizem até que não foi Schiele seu autor, mas Arthur Roessler, cuja amizade com o pintor não impediu que o crítico deixasse registradas suas falhas de caráter numa carta, enviada ao artista um ano antes, acusando-o de fofoqueiro e arrivista, que tirou proveito do trânsito social de Klimt e das suas confidências. Schiele, que não aprendera a grande lição - a de que a verdadeira humildade só nasce da humilhação -, dá, em seu diário, exemplos de uma falsa humildade que não passa de vaidade. No sexto dia de prisão, após relatar o castigo impingido pelo carcereiro, que o obriga a faxinar a cela para depois cuspir sobre o chão limpo, vocifera contra esses perversos que vibram com a desgraça alheia. Mais: reclama que não foi julgado e que seria bom prender todos os deputados, para que “legisladores imponderados” sentissem na própria pele o que significa estar preso. A prisão, no entanto, foi libertadora para Schiele, como admite em seu diário no dia 22 de abril de 1912. Nela, o artista, envolvido com movimentos de vanguarda numa Áustria ainda dominada pelo anacronismo do império austro-húngaro, descobre que a arte é atemporal. “A arte não pode ser moderna; a arte é desdesempreterna.” E acrescenta: como Deus. Não chega a ser uma conversão como a do crítico literário e filósofo romeno Nicolae Steinhardt, batizado em sua cela como cristão ortodoxo (leia texto na página ao lado), mas foi o marco zero da virada de um homem obcecado pela mudança, como todos os que cresceram no crepúsculo dos Habsburgos. Sentindo-se abandonado - e até mesmo traído - pelos amigos, como um Cristo extemporâneo, Schiele achava que iria apodrecer na prisão. E teria mesmo, se o juiz que queimou seu desenho erótico fosse o demônio que o artista pintou. Schiele, em seu diário, quer que o leitor o veja como vítima de uma grande injustiça, a de ter apenas produzido arte erótica repudiada num país de hipócritas, que consumia pornografia vendida nas mesas dos cafés vienenses. É sabido que Schiele não só produziu tais desenhos como os vendia para colecionadores. Eram imagens de pobres e esquálidas adolescentes - primeiro de Viena, depois de Neulengbach - em atos de masturbação explícita. Caso tivesse sido condenado por seduzir uma menor, Schiele poderia ter sido sentenciado a 20 anos de trabalhos forçados na Áustria. Os desenhos da prisão que acompanham o diário não têm qualquer apelo erótico. Alguns estão associados a uma frase ou observação hiperbólica (”Pela arte e pelas pessoas que eu amo, aguentarei firme!”). Variam de traços sintéticos que descrevem o ambiente da prisão a autorretratos de um homem torturado, “gênio artístico” perseguido pela medíocre burguesia austríaca que circulava pela Ringstrasse. Schiele, de fato, foi um pintor genial, expoente da Secessão vienense, mas não o Cristo que pintou com o seu rosto na Última Ceia, concluída no ano da sua morte. Ele tinha, de fato, atração por lolitas. E talvez tenha mesmo se aproveitado da extrema pobreza de algumas. Em Neulengbach, elas saíam de casas miseráveis para buscar abrigo no ateliê de Schiele. Os habitantes da cidade tinham motivos para se queixar, garante o biógrafo Frank Whitford. Schiele era arrogante, desprezava a moral mediana, vivia com uma ruiva menor de idade, atraía as meninas para seu covil e as encorajava ao conhecimento carnal. Queixas registradas na polícia levaram aos desenhos eróticos que adotaram as meninas como modelos. Uma delas agravou a situação: a de um pai que o acusou de sequestrar e seduzir a filha. Retirada a queixa, ainda restou outra, a de exibir arte erótica em lugar acessível a crianças. O juiz foi condescendente: condenou-ou a três dias de prisão, considerando as três semanas em que foi mantido sob custódia. Perfil A breve vida artística de Egon Schiele teve apenas dez anos. Começou em 1908, quando abandonou os estudos, aos 18 anos, e criou o Neukunstgruppe, grupo de vanguarda que defendia a ideia de uma arte tão livre como a sexualidade de seus intérpretes. Essa carreira foi encerrada em 1918, ao ser convidado para a 49.º Secessão de Viena, morrendo nesse mesmo ano. Schiele foi, talvez, o artista que mais pintou autorretratos depois de Rembrandt, todos mostrando um homem atormentado em busca do autoconhecimento por meio da sexualidade. Vivendo na Viena de Freud e Schnitzler, essa busca leva Schiele à obsessão. Um dos autorretratos, que mostra o artista se masturbando, em 1911, traduz bem o isolamento de seu protagonista, cuja expressão de desamparo e desesperança prova que Schiele via o sexo não como celebração erótica, mas rito tanatológico.

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