"Quanto a Agenor, jamais esqueceria aquela desditosa manhã, quando a morte rodopiava ao seu redor e os braços frágeis de dona Angelina Feitosa o arrancaram do paiol em chamas. Agora ela estava partindo e levava para o túmulo o segredo que dividiram durante a vida"
R$ 15,00
ano: 2008
nº páginas: 96
formato: 10,5 x 17 cm
ISBN 9788561530006
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As histórias estão aí. Para quem sabe sonhá-las e contá-las. E esse saber é algo espontâneo e democrático, pois não escolhe cor, nem raça, nem religião, nem erudição. Ainda que seja assim, há raridades por este Brasil que sempre surpreendem. Como é o caso de Laura Matheus, de 70 anos, líder da Colônia Z-3 de Pescadores, banhada pela Lagoa dos Patos, em Pelotas (RS), no extremo sul do país, que um dia, lá pelos 50, quando aprendeu a ler e a escrever, se descobriu escritora.
Depois de ter alguns contos publicados em antologias, entre elas “Tarde demais para não Publicar”, decorrente de uma oficina literária e organizada pela escritora Hilda Simões Lopes, e “Literatura Marginal: Talentos da Escrita Periférica” (ed. Agir, 2005), organizada por Ferréz, e no jornal “O Pescador”, de sua comunidade, Laura publica seu primeiro livro, este “Barbiele”, inaugurando a editora “Luzes no Asfalto”, de autores que merecem ser conhecidos.
São 11 contos de temática variada, um deles francamente autobiográfico (“Teimosa”), em que a realidade de pessoas anônimas, algumas muito humildes, outras nem tanto, é exposta de maneira muito peculiar, com uma linguagem que se alterna entre a fala coloquial e regional e várias pinceladas líricas e, em quatro dos textos, com um toque sobrenatural.
Cinco dos contos – “Detetive Ciriáco”, “Luz Divina”, “Princesa por uma Noite”, “Fogo às Margens do Rio” e “O Coronel” – tratam de crimes cometidos com frieza, sejam assassinatos ou a doação de uma criança nascida da ligação clandestina de um patrão rico e uma empregada.
Já “Vaticínio”, “Remendos do Céu”, “A Voz da Consciência” e “A Escrava” se desenvolvem num clima essencialmente onírico e poético, com personagens interagindo calmamente com seres espirituais ou, no caso do último citado, com os fantasmas que povoam a demência senil.
O sobrenatural também está presente na narrativa que dá título ao livro, em que uma criança rica, mimada e malvada é levada por um ser que diz ser uma estrela (e aparece na forma da menina Barbiele) a viver num ambiente social totalmente oposto ao seu para se transformar numa pessoa melhor.
A riqueza das descrições e os bons diálogos vão surpreender os leitores dessa senhora que, durante todo o tempo em que não podia ter cadernos, lápis e borrachas, “escrevia com o dedo no ar” para não se esquecer das palavras que tinha aprendido em escassos meses numa escola rural.